Ricardo Marques

Da Escatologia (ou apresentando BOSCHKOWSKI)

“He brought everybody down to earth, even the angels”

Leonard Cohen sobre Charles Bukowski

 

    Comecemos com uma história. No final dos anos 70, Francis Bacon, o mais conhecido pintor inglês de então, foi à Royal Academy em Londres buscar umas garrafas de vinho e reparou numa obra de uma jovem desconhecida, Clare Shenstone. Foi o princípio de uma bela amizade entre dois artistas, que teve como pináculo os esquissos que Shenstone, ainda hoje uma figura menor, fez de Bacon no fim da vida, retratando um pouco contraditoriamente aquela que era a face pública de exageros urbanos e sexuais de um pintor maudit. O que retém Shedstone destas invectivas artísticas são, ao invés, a extrema humanidade do pintor mais velho, bem como a afabilidade do seu carácter. Para mais, reza ainda a história desses desenhos que, assim que o nome de George Dyer (o amor da sua vida e cuja morte trágica ele homenageou nos seus três black tryptichs de 72-74), veio à baila, os olhos do pintor não se contiveram nas lágrimas.

 

    Trago toda esta história factual não só a propósito do último livro de João Bosco da Silva (JBS), mas igualmente daquilo que poderia designar o estilo deste jovem poeta. Tal como Bacon (pintor e homem), o texto de JBS está cheio de armadilhas que nos fazem querer desistir a cada instante (assim a vida) ou a relegar tudo para um plano da loucura – organicamente sentimos repulsa pela forma como o seu canto disfórico do mundo se desenvolve a partir dos seus dejectos (num sentido estrito, mas igualmente num sentido amplo). Acontece porém que, como alerta JBS, estes dejectos são os nossos também, e assim se apresenta:

 

“[…]Obrigado, mas sou um poeta que se alimenta

De abismos e os abismos são feitos de sombras, deixem-me habitar nas sombras e ignorar os que são alérgicos ao anonimato.”

 

    Mudo de arte, porém, e atalho agora por outro maudit, o poeta americano Charles Bukowski (1920-1994):  nele reside uma meia-pista importante para ler esta e todas as obras de JBS. Junto-o e junto-me à reflexão de Leonard Cohen sobre Bukowski: a visão iconoclasta de Bukowski é a de JBS, fazendo cair tudo por terra, normalizando tudo o que mitificamos para o terreno, até os anjos da nossa imaginação.

    Por outro lado, a segunda metade da pista é Allen Ginsberg (1926-1996), outro poeta laureadíssimo no underground literário americano. Se em Bukowski vemos esse universo disfórico transmutado para a poesia de JBS, já de Ginsberg podemos ler a forma intensa, torrencial e quase factual de o dizer, de que Howl (1958) é o grito supremo e mais conhecido.

    Comum a ambos os poetas americanos tem JBS a preferência pela linguagem crua, pelas palavras tal como são ditas na rua por si e por todos nós no quotidiano mais colado à pele. De notar que os lugares destes poemas não se circunscrevem apenas ao espaço urbano, como é muita da poesia jovem de hoje, mas viaja por outros territórios, mercê igualmente do seu exílio, e de algumas viagens.

    Terminando também este tríptico, volto-me de novo para a pintura, para servir a melhor parte deste livro: Hieronymus Bosch. Bosch é hoje visto como um surrealista avant la lettre (servindo ou não um princípio religioso ortodoxo, mas isso não nos interessa aqui), um pintor minucioso sobre a minúcia das nossas ansiedades, dos medos, do grotesco e do macabro (revisite-se o “Jardim das Delícias”, por exemplo, para não fugirmos aos seus trípticos), misturando um forte universo onírico e uma grande imaginação, com o topos do “mundo ao contrário”. Assim leio também o poema que dá título ao livro, e que o resume na perfeição. Esta é, realmente, como que uma trepanação ao interior de um pintor iconoclasta e escatológico de linguagem forte, usando todas as palavras que o dicionário tem ao dispôr, incluindo uma mistura estilística de regionalismos e expressões feitas:

 

Trepanação De Jerónimo Bosch
                                                                         para Richard Marx

Um cavalo branco pasta num lameiro enquanto uma cidade adormecida arde sob uma Lua incerta,
Os porcos ressonam nas suas mansões de água e o povo grita com a boca cheia de cinzas e sede,
Arrotam os pançudos satisfeitos das conas vendidas das pobres que se querem habituar a luxos
Com os quais não cresceram, renascem, anéis em dedos ridículos a cada vez que a gaita lamacenta
Dos pançudos suínos lhe escorre da cona santa para quem é cego suficiente para as amar, o cavalo
Pasta e tudo ignora, a erva é fresca e verde, a cinza nem se sente a cair sobre o branco, as chamas
Só se alastram nas paredes sujas que encerram toda a merda humana no seu esplendor aflito para
Evitar um fim que é a única salvação, impossível, porque a água está cara para quem ainda quer
Conservar o que ainda não tem preço, mas vende-se, a honra, abençoa-me lâmina num hara kiri
Desmedido, abre-me todo o nojo para fora, uma boca suficientemente larga para vomitar toda a merda,
Tripas e tudo, ou isso, ou deixai-me pastar sossegado, que já anoitece e a noite promete ser clara.

 

    Como vemos, estamos perante um poeta que não quer limar, que quer surfar a emoção criativa em cada onda-criação que lhe ocorre, tal como Pollock, no pulsar (não uso o verbo por acaso) de cada pincelada, cunhando o que mais tarde se designaria na história de arte por Abstraccionismo Lírico ou Informal.

    Se comecei este texto colando a escrita de JBS a outras escritas precedentes, certamente parentes e com as quais dialoga, o meu intuito foi o apenas colocar todos os que me lêem no contexto correcto. Dito isto, creio que a escrita de JBS tem uma voz própria, uma singularidade no panorama da nossa poesia actual: é um poeta beat, no melhor sentido do termo, como nós não temos, e com as emoções à flor da pele, com esse ritmo vertiginoso que é o de um Kerouac ou de um Ginsberg, remete-nos para o seu (e o nosso) universo. Neste sentido, a sua escrita é um imenso travelling emotivo (como o Stream of Consciousness dos modernistas ingleses), que se desdobra entre deduzir e induzir a partir de tudo o que está à volta. Dito por outras palavras, o universo do poema vai sendo construído à medida que o sujeito poético se abandona à tentação de ver o que se passa à sua volta, concatenando frases coordenadas com a ideia que vem imediatamente atrás, ora retomando outra que deixou mais recuada. Veja-se por exemplo, como se “perde tempo” neste poema:

 

Perder Tempo (p.54)
 
Acorda-se numa casa vazia quando a manhã já traz os cheiros da hora do almoço, aquece-se
O café já frio, abre-se a porta e bebe-se o Sol lá fora, com um livro que ficou a meio há sete
Anos, porque há sete anos tudo estava presente, todo o passado nas mãos a ser trocado por
Chegar a esta manhã que quase no fim, cada palavra tem um sabor demasiado claro e podiam
Ter sido minhas se tivessem passado por mim na forma das coisas que passam por nós,
Mas só o gato da minha irmã ainda passa, o pêlo amarelo na minha perna e assim, sentado,
Espero por companhia enquanto arrefeço novamente o café com goles lentos, enquanto a
Fome me dá sinal da proximidade da ausência, porque estar perto é de todas as formas não
Estar e uma casa vazia é igual a todas as casas vazias, mas um livro que se deixou a meio,
Poderá ser bebericado até ao fim, aquecido ao Sol da solidão de uma manhã invulgarmente
Quente de Dezembro, enquanto se espera que este tempo perdido encurte um pouco mais
A distância próxima da ausência e traga quem nos dê um Bom Dia aos ouvidos e aos lábios famintos.

 

Desengane-se, porém, quem pensei que é só de dejectos directos que aqui se fala. A temática amorosa é a outra face conseguida desta poesia (também, de resto, Bukowski ou Ginsberg a cultivaram), mas nunca sem deixar de lado essa propensão transbordante de palavrear o que as emoções dizem, ou de dizer as emoções em turbilhão:

 

Pão Fresco (p.87)
                                                                    para a Diana,
 
Ela traz-me pão fresco da padaria do lado, o cheiro da manhã no cabelo e a frescura
Do orvalho de Junho preso aos lábios, ninguém me consegue matar a fome como ela faz
E basta-me um sorriso, a mais nutritiva de todas as luzes e que me desculpem as estrelas,
A semear esperanças no vazio, mas ela atravessa o chumbo que me tranca o coração
E o protege de todas as radiações amarelas e amizades de baixa frequência,
Tinha-se colado a agulha do contador Geiger, até que o Sol decidiu ser carne e doçura,
Do tamanho de um abraço, tão quente que me faz querer voltar a ser dentro, dela,
Pequenino, envolvido por uma luz líquida e murmúrios que ridicularizam a espuma das ondas
Do mar, que se afasta, se torna distância, ausência, quando as portas se fecham
E fica apenas o cheiro a pão fresco da padaria do lado, o cheiro da manhã uma recordação
Na almofada e o orvalho de Junho a secar no inferno árido que é a minha pele, quando o Sol
Se põe, e a saudade aparece de imediato, arrastando com ela correntes de incerteza e medo.

 

O último poema do livro (“Conselho para Caminhadas”) ecoa um Ricardo Reis ao contrário – e onde o heterónimo pessoano das odes clássicas aconselhava uma ética restritiva, aqui com Boschkowski tudo se transforma, se quisermos, numa mistura Campos-Caeiro de defesa da experimentação como ética de carpe diem, já que a morte “se/encarregará de abreviar o que/ Tu foste”:

 

“[…]Exagera em tudo o que faças, não poupes um verso, quando fores, vai até ao limite/ E convence-o que se leva demasiado a sério. A morte já se/ encarregará de abreviar o que/ Tu foste, uma data, outra data, o nome que te deram, não escolheste e com sorte/ Uma frase pouco original.”

 

Para concluir, guardo isto para o fim para que não restem dúvidas – Não é fácil gostar-se de um poeta como o João Bosco da Silva. Por isso é tão fácil gostar-se dele quando finalmente vamos para lá das palavras e lemos as outras que as provocaram. É, em suma, este o desafio que ele nos coloca: o de lermos esta poesia com as nossas mais recônditas emoções, com tudo aquilo que somos.

    E, finalmente, estas são as palavras, num outro registo mais poético, que me ocorrem a mim e que leio nele (por isso o chamo de Boschkowski). Com elas poderia substituir tudo o que disse atrás sobre este poeta jovem, sobre este quinto livro da revelação apocalíptica de um mundo que é o nosso, e onde isto se passa efectivamente:

 

DA ESCATOLOGIA
 
Aqui está um rapaz que sabe 
esperar pelo vazio, gerir o espaço
que fica depois de se vomitar,
com o escrúpulo dos deuses,
aquilo que tem de ser dito.
 
Montado na ténue folha dos
séculos, limita-se a imprimir 
com força os dedos, o estômago, 
o coração, as entranhas 
que de tão estranhas a tudo isso
reagem adequadamente.
 
Deixai-o por isso prosperar,
progredir: a missa é a massa 
que os seus olhos, claros como os
de um poeta, vêem, protestando
a aparência penteada do seu
símio parente:
este é o rapaz claro das noites brancas,
e assim se faz à estrada.

 

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