Eis-me a caminho eis
que me debruço para o voo
cheia de lãs e clavículas
e cantos de natal.
Do cimo desta gola alta chego a ser
do tamanho da floresta a floresta 
é um deus na exacta medida dos nossos vinte anos 
é deus connosco na unidade do espanto. 
.
Eis-me a caminho eis
que me ponho a rimar com coisas que ardem
de modo quase inocente –
uma fábrica de terceiro mundo as velas
no bolinho de aniversário a garganta
após a demolição de uma ave.
Eis-me em peregrinação pelo corpo
escama a escama postigo a postigo
eis que me derramo toda sobre o meu útero.
.
E eis que entro na roda com uma figueira na mão
e o rosto intacto da mãe mais primária
a que acrescenta o anho
a que entra no mundo como uma luva
plena de eloquência
com metade dos dedos de fora.
.
Eis-me chegada – digo – eis
que entro na roda sobre uma égua coxa
para ter melhor vista e para melhor 
tropeçar. 
 
marsupial, Catarina Nunes de Almeida
 

Ele (ou eles) estiveram ali durante milénios. Adivinhavam-se, porque o ventre materno não parava de crescer ou porque a partir de determinada altura os seus movimentos se tornavam perceptíveis. O resto era o mistério. Décadas atrás, algumas técnicas permitiram desvendar parcialmente esse mistério. Salvo raras incursões, a poesia manteve-se afastada desse universo, acompanhando o silêncio geral sobre a gravidez, celebrando apenas o nascimento e a infância. Nos últimos anos, o feto e a gravidez começaram no entanto a impor-se no discurso poético. Este livro da Catarina Nunes de Almeida é o relato encantatório dessa viagem a dois, uma viagem de desenvolvimento e conhecimento, que acaba inevitavelmente com a mais terrível das separações.

Jorge Sousa Braga

 

marsupial





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